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Dentre as inúmeras mudanças ocorridas no último século, é incontestável a relevância da revolução social proporcionada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação. As frações de segundo em que a informação hoje circula pelo globo era algo absolutamente inimaginável há pouco menos de 100 anos. A velocidade com que essas mudanças aconteceram não foram, talvez, acompanhadas por uma reflexão mais aprofundada acerca das implicações dessas novas relações estabelecidas entre os indivíduos numa sociedade conectada.

A comunicação de massa, por exemplo, até bem pouco tempo, era um instrumento de poder exclusivo de esferas superiores da sociedade, seja por conta de um excessivo poder financeiro, ou pela tradição de determinados grupos em dominarem os meios de comunicação. Toda informação que era veiculada, passava antes por um filtro que agia entre a realidade e o espectador final. Uma notícia divulgada por um grande jornal era considerado digno de credibilidade, devido à tradição daquele veículo – ainda que essa credibilidade fosse artificialmente construída. Sendo assim, toda informação que circulava tinha a chancela de um “discurso autorizado”. Os jornais ditavam o que pensar, as gravadoras ditavam o que ouvir e a TV ditava em que acreditar.

Com a explosão da Internet, a informação foi democratizada e já não é mais um monopólio de pequenos grupos empresariais. Dessa forma, informações verdadeiras e falsas convivem lado a lado circulando pela rede e uma população já habituada a receber informações filtradas pelos meios de comunicação – e devidamente adestrada a não investigar a veracidade dessas informações – está completamente vulnerável a pessoas mal-intencionadas. Dessa forma, informações falsas amplamente divulgadas pela rede (conhecidas como hoaxes) são tomadas como verdades, o que pode ocasionar desde difamações acerca de pessoas conhecidas ou empresas, ou até mesmo trazerem softwares maliciosos que podem prejudicar o funcionamento do computador ou mesmo roubar dados pessoais tais como senhas de banco.

Acostumamo-nos a ensinar aos nossos filhos as regras básicas de convivência nos centros urbanos, tais como: olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, não aceitar presentes de estranhos etc. Também no mundo virtual já se começa uma espécie de educação para as crianças a fim de evitar ameaças sérias como a pedofilia, por exemplo. No entanto, não são poucos os adultos ainda ingênuos no mundo da internet que costumam ser confundidos por mensagens sentimentalóides, informações caluniosas e promessas milagrosas de facilidades. Fica a questão: por que costumamos ser tão maliciosos no mundo real e desarmamos essa guarda quando estamos diante de um monitor e um teclado? Será que é porque inconscientemente partimos do princípio de que toda informação escrita é verdadeira?

A internet é uma babel de discursos de todos os tipos: honestos e traiçoeiros, inteligentes e simplórios, verdadeiros e falsos e é preciso mantermos o tempo inteiro nosso alerta ligado, de modo que não acreditemos a priori em tudo o que lemos, nem na internet, nem nos meios de comunicação de massa. Afinal de contas, quem não quer ser manipulado, precisa conhecer, e muito bem, as principais formas de manipulação a que somos submetidos todos os dias.

Duas experiências as quais tenho vivido nesses últimos dias estão me fazendo experimentar na pele uma nova maneira de enxergar o amor cristão. Em ambos os casos, Deus colocou na vida da minha família pessoas sobre as quais conhecemos muito pouco, mas ainda assim estão requerendo de nós um amor além do humanamente comum. E em ambas as situações eu e minha esposa estamos experimentando que amar é envolver-se.

É comum em nossa caminhada cristã termos uma visão de que o trabalho evangelístico é um trabalho de redenção de almas. Essa visão não está de todo errada, no entanto, a forma em que muitas vezes fazemos isso está completamente equivocada: consideramos-nos superiores por dispor de algo que o outro não têm e vamos ao seu encontro oferencendo esse algo na base do “quer-quer-não-quer-não-quer”. Ou seja, jogamos a semente e saltamos fora esperando que Deus e o tempo terminem o trabalho da germinação.

Olhando o exemplo de Jesus, vemos que, de fato, às multidões, era mais ou menos isso que ele fazia, até porque seria humanamente impossível o contrário. Mas o que nos chama a atenção é ver que Jesus elegia algumas pessoas em quem ele investia muito mais: investia não somente as suas palavras ou os seus milagres, mas a si mesmo. Zaqueu, Madalena, a mulher na casa de Simão, Mateus foram alguns desses eleitos a quem Jesus precisava dar muito mais. Precisava arriscar seu nome, sua reputação, sua credibilidade a fim de alcançar-lhes o Reino. Esses relacionamentos nos ensinam que amar é muito mais do que dizer palavras bonitas ou ungidas: amar é arriscar-se. É arriscar sua reputação e renome em prol do resgate de alguns, talvez um. Será que estamos mesmo dispostos a isso?

Sob esse novo prisma entendemos a máxima de Cristo em que “É mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Lc 18, 25). O rico é aquele que em sua vida acumulou não somente bens materiais, mas prestígio, reconhecimento. Tais bens costumam ser até mais preciosos do que as próprias riquezas materiais, posto que são conquistadas à custa de muito sacrifício e tempo. Nós costumamos dispender muito de nossas energias em acumular esses bens imateriais de modo inversamente proporcional à disposição que temos de colocá-los em serviço do Reino. No entanto, talvez sejam essas as primeiras coisas que precisamos estar dispostos a abrir mão ao seguir a Cristo.

Amar é envolver-se, comprometer-se. É pensar que não somos redentores de mão única, mas que precisamos também do que essas pessoas têm a nos ensinar com suas histórias de vida, por vezes tão doloridas que pensamos se já não teríamos desistido caso estivessemos em seu lugar e que somos tão fracos e insuficientes quanto esses irmãos. Jesus, muito mais que acumular bens, parecia estar preocupado em acumular amigos. Tanto que chegou ao ponto de dizer: As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” (Lc 9, 58) Talvez por isso precisasse tanto dos ombros daqueles que o cercavam…

Na última sexta-feira tive a oportunidade de participar do show de lançamento do CD Deus em primeiro lugar da banda carioca de hardcore cristão God First. A banda foi formada – ao que me pareceu – a partir de jovens que se conheceram no EJC (Encontro de Jovens com Cristo) e, a partir daí, resolveram tocar aquelas músicas que marcaram essa experiência do jeito que sabem e gostam: com muitas guitarras e pedal duplo. Por experiência, essa é uma receita prontinha para criar sobrancelhas franzidas e cara de “isso não tem como dar certo”. Certo? Errado!

Logo na primeira música (a já manjada “Deus é dez” de Márcio Pacheco) a banda mostra a que veio. Capitaneada pelo centroavante Marcelo Cortês (guitarrista e produtor da banda) com o auxílio do atacante Rob Machado (vocais), os laterais Thales Araújo e Marcelo Martins (guitarras), o zagueiro Rodrigo Oliveira (baixo) e no gol o figuraça Luciano Carvalho (baterista convidado), a God First é uma banda que tem como única pretensão celebrar a alegria de viver com Deus. O que eles fazem com grande maestria. O show é alegre, pra cima e com muita energia, afora o fato de que todos são muito carismáticos no palco e estabelecem com a plateia uma comunicação imediata. O que poderia ser apenas um grupo de garotos fazendo o seu barulho para se divertir, é na verdade uma grande celebração da alegria de ser cristão. E a God First não precisa abrir a boca para pregar sobre isso: está escrito em sua postura.

Nesses tempos em que o profissionalismo por vezes ameaça a espontaneidade e a autenticidade dos artistas cristãos,  a God First vem na contramão, mostrando com seu som bem cuidado, mas despretensioso; alegre, sem ser bobo e sério, sem ser sisudo. Antes de elaborar pregações sobre a vida cristã, podemos ver no rosto daqueles meninos estampada a face de quem está em lua-de-mel com Deus, com a alegria inerente de quem vive essa experiência. É aí que pessoas que se acham mais “vividas” na fé e acham que já viram de tudo precisam aprender a reviver algo que talvez tenha ficado esquecido em algum canto empoeirado do coração.

Acho que não foi por acaso que a banda escolheu abrir o CD com os seguintes versos: “Eu celebrarei cantando ao Senhor e só nele me alegrarei”. É exatamente isso que faz (e muito bem) a jovem banda God First.

Acho curioso ver as pessoas que vão assistir ao filme Tropa de Elite 2 saírem comentando que ele “retrata a realidade nua e crua” como se tivessem amplo conhecimento de causa sobre segurança pública (fora o lugar-comum do “nua e crua”…)

O filme, de fato, apresenta recursos realistas impressionantes tais como as janelas e a vista do prédio da Secretaria de Segurança Pública do Rio que fica na Av. Pres. Vargas, além de apresentar um discurso extremamente convincente e bastante coerente. Esses espectadores até podem ter razão, e TE2 é, de fato, um retrato da realidade. Entretanto, é importante não perdermos o parâmetro de que ele é apenas um discurso. Ponto. O conhecimento acerca da realidade precisa de muito mais recursos e informações do que um simples filme de um único diretor. Por melhor e mais realista que seja, terá sempre apenas um ponto de vista acerca de um assunto tão complexo quanto esse.

Interessante é percebermos que o próprio diretor se dá conta disso, criando um antagonista ideológico que inexistia no primeiro filme. E acredito que é justamente do conflito Cel. Nascimento x Fraga que surgem as melhores questões do filme. O discurso que, no primeiro filme é completamente monológico, no segundo abre as portas para a dialética. Foi uma saída.

Não é meu interesse aqui criticar o filme, nem dizer se ele está certo ou não, mas defender a ideia de que Tropa de Elite 2 não é o único nem o melhor raio x da criminalidade do Rio de Janeiro. Apenas um excelente filme que quer levantar questões, não fechá-las. Nós, que a cada vez mais temos o (péssimo) hábito de ter tudo o que os meios de comunicação nos apresentam como verdadeiro, precisamos colocar as coisas nos seus devidos lugares.

P.S. Faltam apenas 400 mil espectadores para que TE2 ultrapasse a bilheteria de Avatar e seja a maior do ano. Sabendo que no último final de semana ele teve público de 453 mil e vem um feriadão por aí, é muito provável que ele alcance essa marca. Torço muito por isso.

Uma das coisas que mais me incomoda num debate é quando uma das partes – que normalmente é a que está em desvantagem – solta a seguinte pérola: “Mas não podemos generalizar…”. Incomoda porque não é verdade. Podemos. Podemos e fazemos. Podemos, fazemos o tempo inteiro e é inclusive por causa dela que podemos aprender certas coisas sem precisar que tenhamos contato direto com todas as possibilidades existentes debaixo do sol.
Se alguém pedir para você conjugar verbo tergiversar – tão propalado atualmente em tempos de debates políticos – provavelmente você vai enrolar a sua língua na pronúncia, mas irá acertar. Mas como, se você talvez nunca tenha precisado usar esse verbo? Por um simples motivo: você o conjuga como um verbo regular de 1ª conjugação, da mesma forma que andar ou cantar. Essa é a generalização usada de forma positiva.
Nosso cérebro não é capaz de dar conta da complexidade do mundo e uma das estratégias que ele tem para aprender é a de generalizar em determinadas situações. O problema é que essas generalizações podem gerar em nós distorções cognitivas capazes de nos enganar e nos induzirem a erros até graves. Um bom exemplo disso é o preconceito que nada mais é que um julgamento que fazemos de todo um grupo social a partir da impressão que temos acerca de uma pequena amostra desse grupo? Outro exemplo é a superstição. Ela simplesmente consiste num comportamento concomitante a uma determinada situação, ao qual é atribuída uma relação de causa, que, na verdade, inexiste. Ou alguém acha que a cueca que usa, de fato, influencia no rendimento da seleção brasileira nos jogos da Copa?
Entretanto, o erro nessa história não está na generalização em si, mas na interpretação que fazemos dela. Elas nos ajudam, mas não podem ser encaradas como verdades absolutas. Se eu digo, por exemplo, que as mulheres gostam de gastar dinheiro com compras, imediatamente alguma voz se insurge com aquela frase pronta de que falei lá no início. O que as pessoas normalmente não sabem é que a generalização não é sinônimo de totalização. O fato de grande número de mulheres gostarem de ir ao shopping, não significa necessariamente que TODAS elas gostem. E a generalização pode ser útil para se tirarem algumas conclusões.
Portanto, antes de você soltar aquela frasezinha irritante, com o intuito de desqualificar um bom argumento, avalie antes se a generalização é adequada ou não. Mas, por favor, não seja injusto, denegrindo algo que já te ajudou tanto nessa vida.

O globo espelhado

A universidade em que estudo ocupa o prédio de um antigo convento. Como convento que se preze, o prédio tem um pátio interno (aliás, dois. Um no térreo e outro no segundo andar, no que parece ter sido uma área de clausura) e uma capela. Não se sabe por que motivo a capela foi desativada, tendo sido retirado de seu interior tudo aquilo que pudesse remeter ao uso religioso daquele espaço, permanecendo apenas os belos vitrais e a arquitetura típica.

Presenciei hoje uma cena que, aliada à moldura de um dia chuvoso e nublado, me entristeceu: pela primeira vez, vi aquela capela com as luzes acesas durante o dia e, através da porta da frente aberta, espiei para ver o que ali estava acontecendo. Deparei-me com uns operários em cima de um andaime pendurando num gancho preso ao teto um globo espelhado. Desses mesmos que se usam com um ou dois refletores chamados pimbins e que, com alguma fumaça, produz aquele efeito bem característico de pista de dança.

Aquela cena que, caso eu estivesse munido de uma boa máquina profissional renderia uma belíssima foto, traz uma forte carga simbólica, especialmente para mim, já que ambos os elementos que a protagonizavam são bastante representativos para mim: na minha adolescência minha atividade predileta era discotecar. Aprendi as regras básicas do tum-tss-tum-tss e, munido de alguns vinis que, na época já estavam em vias de extinção, fiz a alegria de algumas festinhas pilotando pick-ups e crossfaders. Por conta das minhas atividades como músico, não investi nesse meu lado, muito embora ainda receba convites para ser o responsável pelo playlist da festa de algum amigo.

O outro elemento familiar era a capela. Minha relação com a fé sempre foi muito forte, e mesmo quando eu era criança e minha família era apenas católica de IBGE, minha mãe sempre fez questão de incutir noções de sagrado. Coisas como “aqui é a casa de Deus”, “aqui não se faz barulho”, “Jesus está ali”, me ensinaram a ter respeito pelo sagrado mesmo antes de entender muito bem o que quer que isso significasse.

Ao ver aquele dois ícones juntos, entristeci-me por ver que aquela cena era um retrato do processo de secularização que está esvaziando nossa sociedade. Alicerçada nos males que o mau uso da fé causou na história da humanidade, nossa sociedade ocidental parece estar fazendo a opção de jogar fora, junto com a água do banho, a criança. Empunhando o estandarte da razão, estamos deixando cair o da fé como se não fosse possível extrair o que há de melhor em ambos. Se por um lado a fé é responsabilizada por conflitos, é a razão que os arma. Se a fé é responsabilizada pela intolerância, é a razão que a instrumentaliza.

Também recordo-me de uma recente situação em que, na festa de N. Sra. Aparecida em uma paróquia daqui do Rio, entre outras atrações, foi convidada uma escola de samba que cantou um conhecido samba que, apesar de ser esteticamente impecável, era um canto de louvor à escola e utilizava-se de elementos da fé católica profanando-os para estabelecer suas metáforas. Isso promovido pela própria Igreja que julgava que a letra do samba homenageava Nossa Senhora, quando uma audição mais atenta percebe que a poesia apenas usa a referência religiosa para louvar a escola. Mais um momento em que o sagrado foi duramente golpeado justamente por aqueles que deveriam guardá-lo como seu maior tesouro.

Infelizmente é cada vez mais comum ver o sagrado ser desprezado, ou mesmo até ridicularizado em vários setores da nossa sociedade e poucas são as vezes em que nos damos conta disso. Para mim, foi necessário que a cena caricata de um globo espelhado numa capela me acendesse essa luz de que o espaço que não é ocupado em pouco tempo é tomado.

Inteligência, sensibilidade e espiritualidade

O que esperar da primeira obra musical de um artista que é compositor, cantor, músico, designer, ator, dançarino, rapper e talvez mais algumas outras aptidões que desconheço? “Sobre os Dias” está próximo ou acima do que você imaginou…

Depois da fase em que compôs a banda Em Nome do Pai, onde se destacou com composições consagradas como “Fiat (Faça-se)” e “Canção de Pedro”, Bruno Camurati visita suas referências do blues, do jazz e do pop-cool para fazer um CD requintado, repleto de sutilezas e impossível de ser digerido em uma única audição.

“Leva um tempo” abre o álbum de maneira ao mesmo tempo suave e contundente. Uma brilhante e complexa letra que fala sobre paciência e perseverança com um arranjo jazzístico envolvente e emocionante. Tirar de “Canção de Pedro” o título de obra-prima do cantor parecia ser uma tarefa impossível. Mas parece ser o que aconteceu.

Na linha das inéditas, destacam-se “Maltrapilho” parceria do cantor com Maninho, inspirada no livro “O Evangelho Maltrapilho” de Brennan Manning que nos relembra que Igreja é para ser lugar de doentes. “Oração simples” também se deleita do recurso da metalinguagem — o que aliás aparece em vários outros momentos do CD — sendo quase um manifesto contra os penduricalhos que costumamos colocar nas nossas orações. Certamente um dos pontos altos do disco é  “Lembra”, a confissão em tom menor (literal e figuradamente) de um pecador consciente de sua falta e de sua dependência da misericórdia de Deus. Emocionante.

Também estão presentes as conhecidas composições de Bruno Camurati “Quanto tempo você tem”, com forte sotaque soul; “Fiat”, que virou um suave jazz que massageia os ouvidos e a inevitável “Canção de Pedro” que, ainda mais bonita, traz até um cheiro de maresia…

Se alguém duvidava que era possível se fazer um CD cristão com bom gosto, inteligência, sensibilidade e espiritualidade, fica a dica. “Sobre os Dias” tem todos os ingredientes para deixar uma importante marca na música cristã do Brasil. Ou do mundo, por que não?

Acostumado a criar polêmicas, seja por conta de personagens politicamente incorretos como o sujismundo Cascão, seja por causa do linguajar caipira da turma do Chico Bento, Maurício de Sousa mais uma vez adentra num terreno bem pantanoso. E novamente relacionado ao campo da linguística.

Trata-se do personagem Bloguinho, irmão caçula do Teveluisão (conhecido somente por iniciados em Turma da Mônica, como eu), aficionado em internet e, como o nome sugere, dono de um blog de muito sucesso entre crianças da sua idade. Nada de mais se não considerarmos uma característica do personagem: a fala em “internetês”.

Na verdade o personagem não é recente, foi apresentado em novembro de 2004 no exemplar 221 da revista do Cebolinha, ainda na editora Globo. Tomei conhecimento dele lendo o número 32 da revista da Mônica, agora na Panini (toda vez que a Turma muda de editora a numeração recomeça). No entanto, o que no início aparecia ocasionalmente como falas pontuais e traduzidas em “internetês” nessa nova história aparece direto não só na fala do personagem como de todos os outros personagens da história, inclusive nos tradicionais Mônica e Cebolinha. Caso haja uma maior exposição de Bloguinho, Mauricio pode enfrentar um problema muito parecido com o que houve com a fala caipira do Chico Bento nos anos 80: acharem que as revistas estão “deseducando” as crianças.

Mais uma vez Mauricio de Sousa mostra um tino excelente para abordar assuntos relativos a preconceitos e inclusão. Ao levar a fala informal da internet para os gibis, Mauricio legitima uma característica de um grupo cada vez mais significativo na nossa sociedade. E amplia ainda mais as já esgarçadas possibilidades linguísticas do nosso país.

Já é bastante conhecida no meio linguístico a fala do Prof. Evanildo Bechara de que o falante deve ser um poliglota em sua própria língua e Mauricio de Sousa está dando a cara a tapa ao experimentar essa teoria. Porque no livro é sempre linda e respeitada, mas na prática sempre encontra militantes contra. Cabe a nós educarmos nossos filhos a, da mesma forma que os ensinamos a se vestir adequadamente, a utilizar a liguagem mais apropriada em cada ocasião.

Parabéns Mauricio, mais uma vez, pela coragem e competência!

Recomeçar

“Os meus pés tocam um novo chão / solo abençoado onde Deus quis habitar”

Sair de casa é sempre uma sensação muito estranha… Há 3 anos saí de casa pela primeira vez quando me casei e precisei constituir um novo lar. Confesso que os primeiros meses foram bem complicados, em especial por ter que aprender a conviver com alguém que não meu pai, mãe e irmão, pessoas com quem passamos a vida inteira aprendendo a lidar. Ter que conciliar manias, hábitos, queixas, valores inteiramente novos faz do casamento uma arte. Infelizmente e cada vez mais, para poucos.

E agora, em 2010, minha segunda saída de casa. Deixar um ministério com duas décadas de existência e partir para pintar, mobiliar e equipar minha própria casa está sendo, confesso, igualmente angustiante. Ao mesmo tempo que há a liberdade de tomar minhas próprias decisões, cada uma delas se torna seis vezes mais pesada, já que não há companheiros de banda com quem dividi-las. Também seis vezes maior a responsabilidade de escolher repertório, administrar músicos, fazer um trabalho tão bom ou melhor que o anterior. Penso no momento em que pisarei novamente no palco para cantar um repertório inteiramente novo, e músicas que nunca ninguém antes cantou com músicos com quem nunca toquei. Some-se a isso o peso da responsabilidade de alguém que não é porta-voz de si mesmo, mas de uma mensagem inspirada por Deus e vertida em canções.

Botar a mochila nas costas com seus pertences, alguns que ainda serão úteis e outros que, mais tarde, se descobrirá que não mais serão e partir para além do deserto. Eis meu chamado. Sabendo que, ainda que eu não venha a alcançar a terra prometida, terei a paz de saber que, ao menos, estarei deixando os meus bem mais próximo dela.

 

Texto publicado originalmente no blog Especular no dia 07/09/2010

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