Duas experiências as quais tenho vivido nesses últimos dias estão me fazendo experimentar na pele uma nova maneira de enxergar o amor cristão. Em ambos os casos, Deus colocou na vida da minha família pessoas sobre as quais conhecemos muito pouco, mas ainda assim estão requerendo de nós um amor além do humanamente comum. E em ambas as situações eu e minha esposa estamos experimentando que amar é envolver-se.
É comum em nossa caminhada cristã termos uma visão de que o trabalho evangelístico é um trabalho de redenção de almas. Essa visão não está de todo errada, no entanto, a forma em que muitas vezes fazemos isso está completamente equivocada: consideramos-nos superiores por dispor de algo que o outro não têm e vamos ao seu encontro oferencendo esse algo na base do “quer-quer-não-quer-não-quer”. Ou seja, jogamos a semente e saltamos fora esperando que Deus e o tempo terminem o trabalho da germinação.
Olhando o exemplo de Jesus, vemos que, de fato, às multidões, era mais ou menos isso que ele fazia, até porque seria humanamente impossível o contrário. Mas o que nos chama a atenção é ver que Jesus elegia algumas pessoas em quem ele investia muito mais: investia não somente as suas palavras ou os seus milagres, mas a si mesmo. Zaqueu, Madalena, a mulher na casa de Simão, Mateus foram alguns desses eleitos a quem Jesus precisava dar muito mais. Precisava arriscar seu nome, sua reputação, sua credibilidade a fim de alcançar-lhes o Reino. Esses relacionamentos nos ensinam que amar é muito mais do que dizer palavras bonitas ou ungidas: amar é arriscar-se. É arriscar sua reputação e renome em prol do resgate de alguns, talvez um. Será que estamos mesmo dispostos a isso?
Sob esse novo prisma entendemos a máxima de Cristo em que “É mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Lc 18, 25). O rico é aquele que em sua vida acumulou não somente bens materiais, mas prestígio, reconhecimento. Tais bens costumam ser até mais preciosos do que as próprias riquezas materiais, posto que são conquistadas à custa de muito sacrifício e tempo. Nós costumamos dispender muito de nossas energias em acumular esses bens imateriais de modo inversamente proporcional à disposição que temos de colocá-los em serviço do Reino. No entanto, talvez sejam essas as primeiras coisas que precisamos estar dispostos a abrir mão ao seguir a Cristo.
Amar é envolver-se, comprometer-se. É pensar que não somos redentores de mão única, mas que precisamos também do que essas pessoas têm a nos ensinar com suas histórias de vida, por vezes tão doloridas que pensamos se já não teríamos desistido caso estivessemos em seu lugar e que somos tão fracos e insuficientes quanto esses irmãos. Jesus, muito mais que acumular bens, parecia estar preocupado em acumular amigos. Tanto que chegou ao ponto de dizer: As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” (Lc 9, 58) Talvez por isso precisasse tanto dos ombros daqueles que o cercavam…
Lindo Mozi!
Quanto cantarmos “viver pra mim é Cristo…” devemos lembrar do que foi a vida de Cristo e qual era seu jeito de amar e se envolver com os que Ele encontrava pelo caminho.