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Archive for dezembro \12\UTC 2008

O brasileiro tem a fama internacional de ser um povo simpático, de bem com a vida que não se estressa com nada e está sempre feliz. Mentira. O brasileiro é um povo tão mau-humorado quanto os mais enfezados dos alemães. A reclamação é um dos esportes preferidos do brasileiro: reclama do time, reclama do país, reclama da família, reclama da própria saúde… Basta estacionar ao lado de um típico exemplar da espécie numa fila de banco que começa o rosário de lamúrias.

Não é de se estranhar que o bom humor e o otimismo estejam fora de moda. É chique ter uma visão negativa, cética e niilista do mundo. Na verdade parece que todos fomos educados a acharmos lindo pensar que o mundo é um lixo e que nenhum ser humano presta fumando sentados num café numa nublada Paris em P&B. Nada mais elegante.

Acho que o excesso da leitura de Pollyanna, ao que tudo indica obrigatória nos anos 70/80, ativou na população brasileira uma certa ojeriza ao otimismo. O otimista não passa de um grande otário que é abusado por todos à sua volta e que está prestes a ser passado para trás. “É bom demais pra ser verdade”, “Quando a esmola é muita, o santo desconfia” e “O que é bom dura pouco” são filosofias de vida.

Todo esse pessimismo tem um cheiro de autodefesa, pois parece ser melhor achar que tudo está uma droga logo de uma vez do que achar que está tudo uma maravilha e ser pego de surpresa por um revés. Como aquele humorista que começa o show dizendo-se canastrão antes que alguém o faça.

Além disso, a reclamação é uma maneira de se achar que está fazendo alguma coisa sem fazer absolutamente nada. O brasileiro reclama tanto que pensa que  está fazendo algo para mudar aquilo que está errado, mas no fundo não tem coragem para peitar os desafios.

Acontece que toda mudança requer sonhos. Tudo o que existe de novo no mundo existiu antes na cabeça de alguém sob a forma de sonho. É preciso falar menos e fazer mais. É preciso voltar a crer que o que está ruim agora, amanhã poderá não estar mais se algo for feito. É preciso voltar a sonhar, e, de preferência, rindo um pouco mais de si mesmo.

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Hoje, andando na rua, vi um out-door de uma pizarria anunciando sua nova pizza “finíssima” com uma modelo em trajes de banho comendo uma fatia, deitada, com uma lata de Nestea na outra mão. Afora o fato da fatia não só parecer finíssima como duríssima, fiquei analisando se eu poderia ou não acreditar se aquela modelo realmente existia.

Há tempos venho percebendo um crescente artificialismo (com “ismo” mesmo, de doutrina) vinda, principalmente, por parte da publicidade. Cada vez mais nossos olhos são acostumados com visões artificiais travestidas de reais e, infelizmente, cada vez mais temos acreditado nessas visões.

Dessa nova doutrina, as principais vítimas são as mulheres, cada vez mais assediadas pelo perverso mercado da beleza que as faz acreditar em novos modelos, se não cada vez mais impossíveis, pelo menos cada vez mais caros. Uma catequese do tipo: “você pode ser bonita como ela, pela módica quantia de x.xxx,xx reais”. Mas lembre-se: quem diz isso é a publicidade que ainda têm o direito de usar e abusar do Photoshop.

Não só nossos olhos vêm sendo enganados, mas outros sentidos também como o paladar: aromatizantes, corantes e gorduras trans são como as plásticas e lipoaspirações que transformam qualquer porcaria comestível numa iguaria irresistível. E quanto à audição? Se não faz milagres, pelo menos o software de gravação fonográfica mais usado na atualidade transforma um cantor péssimo em pelo menos alguém medíocre. Depois do Pro Tools, as prateleiras, o jabá e tome porcaria na nossa TV e nossas rádios…

Até quando seremos enganados desse jeito? Até quando ouviremos, provaremos, cheiraremos, comeremos sem o menor espírito crítico? Se não podemos vencê-los, ao menos possamos curtir as modelos irresistíveis e suas pizzas finíssimas, mas sem exigir as mesmas silhuetas finíssimas e duríssimas de nossas mulheres reais.

P.S. – Publicado originalmente no dia  28/08/06 no meu antigo blog no multiply.

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Blu-Ray, HDTV, GPS, MP3, MP4, MP5, MPn… São tantas as novidades tecnológicas que nos assediam nessa pós-modernidade, que surge uma inegável questão: até que ponto precisamos de tudo isso e em tão pouco tempo?

Os avanços científicos têm crescido em escala exponencial e nos dias de hoje é capaz de uma novidade já surgir ultrapassada, como o Windows Vista, que foi lançado já de olho no Windows 7 e o Blu-Ray cuja capacidade dos sucessores especula-se circular entre 200Gb, 400Gb e até 1Pb! (isso mesmo: 1 petabyte ou 1.000.000Gb!!).

Parece-nos que a ciência avança sem uma direção pré-determinada. Cada pesquisador no seu laboratório, financiado por uma grande empresa ou não, avança suas pesquisas de forma cega. No fim das contas toda essa tecnologia fornece insumos para que a indústria crie os gadgets para os quais os consumidores terão de inventar uma utilidade em suas vidas. Caso não haja essa necessidade, cria-se uma.

O interessante é percebermos que o avanços tecnológicos hoje são tão velozes que já não temos mais tempo de assimilá-los, digeri-los. Ná há tempo suficiente para que o uso dessas tecnologias seja amadurecido e que se possa obter delas o melhor possível. Até porque esse é um processo humano e, não adianta, como não somos feitos de silício, somos sujeitos a emoções, sentimentos, questionamentos, dúvidas, imperfeições… essas coisas fora de moda que só servem para atrapalhar a dura engrenagem da ciência e do conhecimento.

Aliado a isso, temos a idéia, tão clichê quanto verdadeira, de que o avanço dos nossos meios de comunicação é inversamente proporcional à qualidade da nossa comunicação interpessoal. Quanto mais os homens conseguem estabelecer contato, mais se dão conta de que não conseguem se comunicar.

Há também uma necessidade de uniformização das necessidades. Por mais que não alguém não ligue para televisão, por exemplo, e gaste apenas alguns minutos do seu dia diante dela, a exigência de uma TV de Plasma de 42″ HDTV com conversor de TV digital é algo que nos é cobrado como se não tivéssemos um fogão ou uma geladeira: “mas como! depois que você vir a qualidade da imagem… dá pra enxergar tudo!” como se fosse tão relevante assim ver o Faustão e o Galvão Bueno em alta definição…

Ou o player de vídeo, a câmera digital (quase sempre de baixa qualidade) no celular, o touchscreen, itens absolutamente irrelevantes que com o tempo se tornam obrigatórios. É interessantes atentarmos para os paradoxos que naturalmente surgem dessa ânsia por tecnologia: tivemos como substituto da tecnologia VHS, o DVD, por causa da interatividade, da qualidade da imagem e da possibilidade de materiais extras. Pois bem. Hoje, os mais descolados aparelhos de DVD têm de ser compatíveis com o formato DivX, justamente onde não se tem nada disso! O mesmo acontece com o mp3. Tanto se pesquisou sobre a qualidade sonora do gravação digital para no fim das contas hoje ouvirmos nos nossos celulares e mp3 players um som tão ou mais comprimido que o do vinil…

É chegado o momento: ou nos tornamos senhores da nossa própria criação ou seremos cada vez mais escravizados por ela.

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