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Archive for setembro \28\UTC 2010

Inteligência, sensibilidade e espiritualidade

O que esperar da primeira obra musical de um artista que é compositor, cantor, músico, designer, ator, dançarino, rapper e talvez mais algumas outras aptidões que desconheço? “Sobre os Dias” está próximo ou acima do que você imaginou…

Depois da fase em que compôs a banda Em Nome do Pai, onde se destacou com composições consagradas como “Fiat (Faça-se)” e “Canção de Pedro”, Bruno Camurati visita suas referências do blues, do jazz e do pop-cool para fazer um CD requintado, repleto de sutilezas e impossível de ser digerido em uma única audição.

“Leva um tempo” abre o álbum de maneira ao mesmo tempo suave e contundente. Uma brilhante e complexa letra que fala sobre paciência e perseverança com um arranjo jazzístico envolvente e emocionante. Tirar de “Canção de Pedro” o título de obra-prima do cantor parecia ser uma tarefa impossível. Mas parece ser o que aconteceu.

Na linha das inéditas, destacam-se “Maltrapilho” parceria do cantor com Maninho, inspirada no livro “O Evangelho Maltrapilho” de Brennan Manning que nos relembra que Igreja é para ser lugar de doentes. “Oração simples” também se deleita do recurso da metalinguagem — o que aliás aparece em vários outros momentos do CD — sendo quase um manifesto contra os penduricalhos que costumamos colocar nas nossas orações. Certamente um dos pontos altos do disco é  “Lembra”, a confissão em tom menor (literal e figuradamente) de um pecador consciente de sua falta e de sua dependência da misericórdia de Deus. Emocionante.

Também estão presentes as conhecidas composições de Bruno Camurati “Quanto tempo você tem”, com forte sotaque soul; “Fiat”, que virou um suave jazz que massageia os ouvidos e a inevitável “Canção de Pedro” que, ainda mais bonita, traz até um cheiro de maresia…

Se alguém duvidava que era possível se fazer um CD cristão com bom gosto, inteligência, sensibilidade e espiritualidade, fica a dica. “Sobre os Dias” tem todos os ingredientes para deixar uma importante marca na música cristã do Brasil. Ou do mundo, por que não?

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Acostumado a criar polêmicas, seja por conta de personagens politicamente incorretos como o sujismundo Cascão, seja por causa do linguajar caipira da turma do Chico Bento, Maurício de Sousa mais uma vez adentra num terreno bem pantanoso. E novamente relacionado ao campo da linguística.

Trata-se do personagem Bloguinho, irmão caçula do Teveluisão (conhecido somente por iniciados em Turma da Mônica, como eu), aficionado em internet e, como o nome sugere, dono de um blog de muito sucesso entre crianças da sua idade. Nada de mais se não considerarmos uma característica do personagem: a fala em “internetês”.

Na verdade o personagem não é recente, foi apresentado em novembro de 2004 no exemplar 221 da revista do Cebolinha, ainda na editora Globo. Tomei conhecimento dele lendo o número 32 da revista da Mônica, agora na Panini (toda vez que a Turma muda de editora a numeração recomeça). No entanto, o que no início aparecia ocasionalmente como falas pontuais e traduzidas em “internetês” nessa nova história aparece direto não só na fala do personagem como de todos os outros personagens da história, inclusive nos tradicionais Mônica e Cebolinha. Caso haja uma maior exposição de Bloguinho, Mauricio pode enfrentar um problema muito parecido com o que houve com a fala caipira do Chico Bento nos anos 80: acharem que as revistas estão “deseducando” as crianças.

Mais uma vez Mauricio de Sousa mostra um tino excelente para abordar assuntos relativos a preconceitos e inclusão. Ao levar a fala informal da internet para os gibis, Mauricio legitima uma característica de um grupo cada vez mais significativo na nossa sociedade. E amplia ainda mais as já esgarçadas possibilidades linguísticas do nosso país.

Já é bastante conhecida no meio linguístico a fala do Prof. Evanildo Bechara de que o falante deve ser um poliglota em sua própria língua e Mauricio de Sousa está dando a cara a tapa ao experimentar essa teoria. Porque no livro é sempre linda e respeitada, mas na prática sempre encontra militantes contra. Cabe a nós educarmos nossos filhos a, da mesma forma que os ensinamos a se vestir adequadamente, a utilizar a liguagem mais apropriada em cada ocasião.

Parabéns Mauricio, mais uma vez, pela coragem e competência!

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Recomeçar

“Os meus pés tocam um novo chão / solo abençoado onde Deus quis habitar”

Sair de casa é sempre uma sensação muito estranha… Há 3 anos saí de casa pela primeira vez quando me casei e precisei constituir um novo lar. Confesso que os primeiros meses foram bem complicados, em especial por ter que aprender a conviver com alguém que não meu pai, mãe e irmão, pessoas com quem passamos a vida inteira aprendendo a lidar. Ter que conciliar manias, hábitos, queixas, valores inteiramente novos faz do casamento uma arte. Infelizmente e cada vez mais, para poucos.

E agora, em 2010, minha segunda saída de casa. Deixar um ministério com duas décadas de existência e partir para pintar, mobiliar e equipar minha própria casa está sendo, confesso, igualmente angustiante. Ao mesmo tempo que há a liberdade de tomar minhas próprias decisões, cada uma delas se torna seis vezes mais pesada, já que não há companheiros de banda com quem dividi-las. Também seis vezes maior a responsabilidade de escolher repertório, administrar músicos, fazer um trabalho tão bom ou melhor que o anterior. Penso no momento em que pisarei novamente no palco para cantar um repertório inteiramente novo, e músicas que nunca ninguém antes cantou com músicos com quem nunca toquei. Some-se a isso o peso da responsabilidade de alguém que não é porta-voz de si mesmo, mas de uma mensagem inspirada por Deus e vertida em canções.

Botar a mochila nas costas com seus pertences, alguns que ainda serão úteis e outros que, mais tarde, se descobrirá que não mais serão e partir para além do deserto. Eis meu chamado. Sabendo que, ainda que eu não venha a alcançar a terra prometida, terei a paz de saber que, ao menos, estarei deixando os meus bem mais próximo dela.

 

Texto publicado originalmente no blog Especular no dia 07/09/2010

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