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Archive for outubro \18\UTC 2010

A universidade em que estudo ocupa o prédio de um antigo convento. Como convento que se preze, o prédio tem um pátio interno (aliás, dois. Um no térreo e outro no segundo andar, no que parece ter sido uma área de clausura) e uma capela. Não se sabe por que motivo a capela foi desativada, tendo sido retirado de seu interior tudo aquilo que pudesse remeter ao uso religioso daquele espaço, permanecendo apenas os belos vitrais e a arquitetura típica.

Presenciei hoje uma cena que, aliada à moldura de um dia chuvoso e nublado, me entristeceu: pela primeira vez, vi aquela capela com as luzes acesas durante o dia e, através da porta da frente aberta, espiei para ver o que ali estava acontecendo. Deparei-me com uns operários em cima de um andaime pendurando num gancho preso ao teto um globo espelhado. Desses mesmos que se usam com um ou dois refletores chamados pimbins e que, com alguma fumaça, produz aquele efeito bem característico de pista de dança.

Aquela cena que, caso eu estivesse munido de uma boa máquina profissional renderia uma belíssima foto, traz uma forte carga simbólica, especialmente para mim, já que ambos os elementos que a protagonizavam são bastante representativos para mim: na minha adolescência minha atividade predileta era discotecar. Aprendi as regras básicas do tum-tss-tum-tss e, munido de alguns vinis que, na época já estavam em vias de extinção, fiz a alegria de algumas festinhas pilotando pick-ups e crossfaders. Por conta das minhas atividades como músico, não investi nesse meu lado, muito embora ainda receba convites para ser o responsável pelo playlist da festa de algum amigo.

O outro elemento familiar era a capela. Minha relação com a fé sempre foi muito forte, e mesmo quando eu era criança e minha família era apenas católica de IBGE, minha mãe sempre fez questão de incutir noções de sagrado. Coisas como “aqui é a casa de Deus”, “aqui não se faz barulho”, “Jesus está ali”, me ensinaram a ter respeito pelo sagrado mesmo antes de entender muito bem o que quer que isso significasse.

Ao ver aquele dois ícones juntos, entristeci-me por ver que aquela cena era um retrato do processo de secularização que está esvaziando nossa sociedade. Alicerçada nos males que o mau uso da fé causou na história da humanidade, nossa sociedade ocidental parece estar fazendo a opção de jogar fora, junto com a água do banho, a criança. Empunhando o estandarte da razão, estamos deixando cair o da fé como se não fosse possível extrair o que há de melhor em ambos. Se por um lado a fé é responsabilizada por conflitos, é a razão que os arma. Se a fé é responsabilizada pela intolerância, é a razão que a instrumentaliza.

Também recordo-me de uma recente situação em que, na festa de N. Sra. Aparecida em uma paróquia daqui do Rio, entre outras atrações, foi convidada uma escola de samba que cantou um conhecido samba que, apesar de ser esteticamente impecável, era um canto de louvor à escola e utilizava-se de elementos da fé católica profanando-os para estabelecer suas metáforas. Isso promovido pela própria Igreja que julgava que a letra do samba homenageava Nossa Senhora, quando uma audição mais atenta percebe que a poesia apenas usa a referência religiosa para louvar a escola. Mais um momento em que o sagrado foi duramente golpeado justamente por aqueles que deveriam guardá-lo como seu maior tesouro.

Infelizmente é cada vez mais comum ver o sagrado ser desprezado, ou mesmo até ridicularizado em vários setores da nossa sociedade e poucas são as vezes em que nos damos conta disso. Para mim, foi necessário que a cena caricata de um globo espelhado numa capela me acendesse essa luz de que o espaço que não é ocupado em pouco tempo é tomado.

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