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Archive for the ‘crônicas’ Category

O brasileiro tem a fama internacional de ser um povo simpático, de bem com a vida que não se estressa com nada e está sempre feliz. Mentira. O brasileiro é um povo tão mau-humorado quanto os mais enfezados dos alemães. A reclamação é um dos esportes preferidos do brasileiro: reclama do time, reclama do país, reclama da família, reclama da própria saúde… Basta estacionar ao lado de um típico exemplar da espécie numa fila de banco que começa o rosário de lamúrias.

Não é de se estranhar que o bom humor e o otimismo estejam fora de moda. É chique ter uma visão negativa, cética e niilista do mundo. Na verdade parece que todos fomos educados a acharmos lindo pensar que o mundo é um lixo e que nenhum ser humano presta fumando sentados num café numa nublada Paris em P&B. Nada mais elegante.

Acho que o excesso da leitura de Pollyanna, ao que tudo indica obrigatória nos anos 70/80, ativou na população brasileira uma certa ojeriza ao otimismo. O otimista não passa de um grande otário que é abusado por todos à sua volta e que está prestes a ser passado para trás. “É bom demais pra ser verdade”, “Quando a esmola é muita, o santo desconfia” e “O que é bom dura pouco” são filosofias de vida.

Todo esse pessimismo tem um cheiro de autodefesa, pois parece ser melhor achar que tudo está uma droga logo de uma vez do que achar que está tudo uma maravilha e ser pego de surpresa por um revés. Como aquele humorista que começa o show dizendo-se canastrão antes que alguém o faça.

Além disso, a reclamação é uma maneira de se achar que está fazendo alguma coisa sem fazer absolutamente nada. O brasileiro reclama tanto que pensa que  está fazendo algo para mudar aquilo que está errado, mas no fundo não tem coragem para peitar os desafios.

Acontece que toda mudança requer sonhos. Tudo o que existe de novo no mundo existiu antes na cabeça de alguém sob a forma de sonho. É preciso falar menos e fazer mais. É preciso voltar a crer que o que está ruim agora, amanhã poderá não estar mais se algo for feito. É preciso voltar a sonhar, e, de preferência, rindo um pouco mais de si mesmo.

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Cenas cariocas II

Quatorze de outubro de dois mil e oito. R. São Francisco  Xavier, Maracanã. Dezenove horas.

Um 247 lotado segue seu itinerário para o Méier. Na altura do viaduto da Mangueira, o som de três tiros. Todos no ônibus se abaixam. Numa rua à direita só se deu para ver uma moto caída e um táxi parado ao lado. Mais ninguém. Todos se levantaram e continuaram seus assuntos interrompidos como se nada tivesse acontecido…

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Desde criança tive um bom relacionamento com as palavras. Nunca elas me foram estranhas ou amedrontadoras de modo que decifrá-las chegou mesmo a ser uma grande diversão quando, ainda criança, desafiava-me a lê-las nos letreiros das lojas e nas placas das ruas. Mais tarde, nas aulas de português, costumava ser bajulado pelas minhas professoras por minhas poesias e dissertações.

No entanto, ao mergulhar um pouco mais fundo no mundo das letras e ler gente que brincava com as palavras, que sabia tirar delas sentidos que inicialmente elas não tinham, senti-me cada vez mais exigente com minha produção literária que, com isso, acabou caindo, caindo até a sua extinção. Posteriormente fazendo um curso superior que não exigia maiores capacidades redacionais, deixei de desenvolver esse meu lado.

Recentemente, ao iniciar a graduação em Letras vejo-me reencontrando com esse fantasma de outrora e recuperar a minha redação se faz necessário. Confesso que não é nada fácil recomeçar depois de um longo período, mas ao mesmo tempo, há um novo odor de desafio. Muito parecido com o daquele pirralho metido a sabido lendo os letreiros na rua.

Espero nessa nova etapa da minha vida aprender novos recursos, novas saídas para continuar desenvolvendo minha escrita, que talvez tenha sido uma das minhas maiores incentivadoras na escolha do curso. Nest blog tenho procurado exercitar a redação sem maiores compromissos, para tentar fazer novamente das palavras, as minhas maiores amigas.

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Não freqüentava o Roxy, nem o Leblon. Muito menos passava minhas tardes no Shopping da Gávea nem caminhava no calçadão. Não sei o sabor do bacalhau do Antiquarius muito menos qual o mais novo restaurante de Roberta Sudbrack. Para mim, a melhor pizza do Rio não estava na Capricciosa, nem na Guanabara, mas na delícia crocante que era a do Fiorino ali na Tijuca. Não freqüento a missa na Nossa Senhora da Paz e não estico na Chaika. Não comi os pastéizinhos do Bracarense e nem do Jobi, muito menos curti a noite em pé na porta do Belmonte. A Barra da Tijuca era um lugar longínquo, do qual eu só conhecia o La Mole e o Barra Shopping.

No entanto, passava minha infância entre Realengo e Todos os Santos. Fazia minha felicidade participar das manhãs de sábado no Jardim do Méier, onde moro até hoje e ouvir da minha mãe que eu não podia ir na montanha russa do Tivoli Park (porque, embora talvez também tivesse medo, poderia pôr toda a culpa nela). Adorava o Shangai e nem sei se ainda é possível de ser freqüentado tamanha a violência na região. Ia a bailes de carnaval na rua e festas juninas. Assisti muitos filmes, muitas peças, fui a museus.

Conheci boa parte do Rio de Janeiro com meus pais. Passeava, sim, de vez em quando na Zona Sul, mas sabia me divertir quando o programa era a Quinta da Boa Vista e rolar em sua grama ao som dos gritos de “cuidado, menino!”. Desde bem pequeno fazia questão de saber o nome de todas as ruas, decorar os caminhos, entender os trajetos. A geografia da cidade nunca houvera sido um mistério para mim.

Hoje, lendo os jornais e revistas do Rio de Janeiro, tenho a impressão de que o além-túnel é um lugar cheio de mistérios e perigos, cujo risco valia apenas para se assistir a uma partida de futebol no Maracanã. Infelizmente poucos são os pais que levam os filhos para passear de trem e conhecer as pessoas que acordam às quatro e meia da manhã para ir trabalhar. Aquelas mesmas que abrem para eles o portão da garagem e que recolhem as bandejas deixadas nas mesas dos shoppings. Há muita disposição em se conhecer culturas exóticas como a indiana e a chinesa e pouco saber dos hábitos e costumes suburbanos.

O Rio de Janeiro é um universo múltiplo, mas fragmentado. Muito nos tocamos, mas pouco nos conhecemos. Da mesma forma que o carioca é um povo simpático e acolhedor, é um povo que não se dá a conhecer. Nunca se sabe o que está por trás de um sorriso carioca e nunca se sabe quando se realmente se deve “aparecer lá em casa”.

Quem sabe um dia esses muros caiam e possamos enfim, cada um no seu canto, ser apenas uma cidade.

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