Feeds:
Posts
Comentários

O globo espelhado

A universidade em que estudo ocupa o prédio de um antigo convento. Como convento que se preze, o prédio tem um pátio interno (aliás, dois. Um no térreo e outro no segundo andar, no que parece ter sido uma área de clausura) e uma capela. Não se sabe por que motivo a capela foi desativada, tendo sido retirado de seu interior tudo aquilo que pudesse remeter ao uso religioso daquele espaço, permanecendo apenas os belos vitrais e a arquitetura típica.

Presenciei hoje uma cena que, aliada à moldura de um dia chuvoso e nublado, me entristeceu: pela primeira vez, vi aquela capela com as luzes acesas durante o dia e, através da porta da frente aberta, espiei para ver o que ali estava acontecendo. Deparei-me com uns operários em cima de um andaime pendurando num gancho preso ao teto um globo espelhado. Desses mesmos que se usam com um ou dois refletores chamados pimbins e que, com alguma fumaça, produz aquele efeito bem característico de pista de dança.

Aquela cena que, caso eu estivesse munido de uma boa máquina profissional renderia uma belíssima foto, traz uma forte carga simbólica, especialmente para mim, já que ambos os elementos que a protagonizavam são bastante representativos para mim: na minha adolescência minha atividade predileta era discotecar. Aprendi as regras básicas do tum-tss-tum-tss e, munido de alguns vinis que, na época já estavam em vias de extinção, fiz a alegria de algumas festinhas pilotando pick-ups e crossfaders. Por conta das minhas atividades como músico, não investi nesse meu lado, muito embora ainda receba convites para ser o responsável pelo playlist da festa de algum amigo.

O outro elemento familiar era a capela. Minha relação com a fé sempre foi muito forte, e mesmo quando eu era criança e minha família era apenas católica de IBGE, minha mãe sempre fez questão de incutir noções de sagrado. Coisas como “aqui é a casa de Deus”, “aqui não se faz barulho”, “Jesus está ali”, me ensinaram a ter respeito pelo sagrado mesmo antes de entender muito bem o que quer que isso significasse.

Ao ver aquele dois ícones juntos, entristeci-me por ver que aquela cena era um retrato do processo de secularização que está esvaziando nossa sociedade. Alicerçada nos males que o mau uso da fé causou na história da humanidade, nossa sociedade ocidental parece estar fazendo a opção de jogar fora, junto com a água do banho, a criança. Empunhando o estandarte da razão, estamos deixando cair o da fé como se não fosse possível extrair o que há de melhor em ambos. Se por um lado a fé é responsabilizada por conflitos, é a razão que os arma. Se a fé é responsabilizada pela intolerância, é a razão que a instrumentaliza.

Também recordo-me de uma recente situação em que, na festa de N. Sra. Aparecida em uma paróquia daqui do Rio, entre outras atrações, foi convidada uma escola de samba que cantou um conhecido samba que, apesar de ser esteticamente impecável, era um canto de louvor à escola e utilizava-se de elementos da fé católica profanando-os para estabelecer suas metáforas. Isso promovido pela própria Igreja que julgava que a letra do samba homenageava Nossa Senhora, quando uma audição mais atenta percebe que a poesia apenas usa a referência religiosa para louvar a escola. Mais um momento em que o sagrado foi duramente golpeado justamente por aqueles que deveriam guardá-lo como seu maior tesouro.

Infelizmente é cada vez mais comum ver o sagrado ser desprezado, ou mesmo até ridicularizado em vários setores da nossa sociedade e poucas são as vezes em que nos damos conta disso. Para mim, foi necessário que a cena caricata de um globo espelhado numa capela me acendesse essa luz de que o espaço que não é ocupado em pouco tempo é tomado.

Anúncios

Inteligência, sensibilidade e espiritualidade

O que esperar da primeira obra musical de um artista que é compositor, cantor, músico, designer, ator, dançarino, rapper e talvez mais algumas outras aptidões que desconheço? “Sobre os Dias” está próximo ou acima do que você imaginou…

Depois da fase em que compôs a banda Em Nome do Pai, onde se destacou com composições consagradas como “Fiat (Faça-se)” e “Canção de Pedro”, Bruno Camurati visita suas referências do blues, do jazz e do pop-cool para fazer um CD requintado, repleto de sutilezas e impossível de ser digerido em uma única audição.

“Leva um tempo” abre o álbum de maneira ao mesmo tempo suave e contundente. Uma brilhante e complexa letra que fala sobre paciência e perseverança com um arranjo jazzístico envolvente e emocionante. Tirar de “Canção de Pedro” o título de obra-prima do cantor parecia ser uma tarefa impossível. Mas parece ser o que aconteceu.

Na linha das inéditas, destacam-se “Maltrapilho” parceria do cantor com Maninho, inspirada no livro “O Evangelho Maltrapilho” de Brennan Manning que nos relembra que Igreja é para ser lugar de doentes. “Oração simples” também se deleita do recurso da metalinguagem — o que aliás aparece em vários outros momentos do CD — sendo quase um manifesto contra os penduricalhos que costumamos colocar nas nossas orações. Certamente um dos pontos altos do disco é  “Lembra”, a confissão em tom menor (literal e figuradamente) de um pecador consciente de sua falta e de sua dependência da misericórdia de Deus. Emocionante.

Também estão presentes as conhecidas composições de Bruno Camurati “Quanto tempo você tem”, com forte sotaque soul; “Fiat”, que virou um suave jazz que massageia os ouvidos e a inevitável “Canção de Pedro” que, ainda mais bonita, traz até um cheiro de maresia…

Se alguém duvidava que era possível se fazer um CD cristão com bom gosto, inteligência, sensibilidade e espiritualidade, fica a dica. “Sobre os Dias” tem todos os ingredientes para deixar uma importante marca na música cristã do Brasil. Ou do mundo, por que não?

Acostumado a criar polêmicas, seja por conta de personagens politicamente incorretos como o sujismundo Cascão, seja por causa do linguajar caipira da turma do Chico Bento, Maurício de Sousa mais uma vez adentra num terreno bem pantanoso. E novamente relacionado ao campo da linguística.

Trata-se do personagem Bloguinho, irmão caçula do Teveluisão (conhecido somente por iniciados em Turma da Mônica, como eu), aficionado em internet e, como o nome sugere, dono de um blog de muito sucesso entre crianças da sua idade. Nada de mais se não considerarmos uma característica do personagem: a fala em “internetês”.

Na verdade o personagem não é recente, foi apresentado em novembro de 2004 no exemplar 221 da revista do Cebolinha, ainda na editora Globo. Tomei conhecimento dele lendo o número 32 da revista da Mônica, agora na Panini (toda vez que a Turma muda de editora a numeração recomeça). No entanto, o que no início aparecia ocasionalmente como falas pontuais e traduzidas em “internetês” nessa nova história aparece direto não só na fala do personagem como de todos os outros personagens da história, inclusive nos tradicionais Mônica e Cebolinha. Caso haja uma maior exposição de Bloguinho, Mauricio pode enfrentar um problema muito parecido com o que houve com a fala caipira do Chico Bento nos anos 80: acharem que as revistas estão “deseducando” as crianças.

Mais uma vez Mauricio de Sousa mostra um tino excelente para abordar assuntos relativos a preconceitos e inclusão. Ao levar a fala informal da internet para os gibis, Mauricio legitima uma característica de um grupo cada vez mais significativo na nossa sociedade. E amplia ainda mais as já esgarçadas possibilidades linguísticas do nosso país.

Já é bastante conhecida no meio linguístico a fala do Prof. Evanildo Bechara de que o falante deve ser um poliglota em sua própria língua e Mauricio de Sousa está dando a cara a tapa ao experimentar essa teoria. Porque no livro é sempre linda e respeitada, mas na prática sempre encontra militantes contra. Cabe a nós educarmos nossos filhos a, da mesma forma que os ensinamos a se vestir adequadamente, a utilizar a liguagem mais apropriada em cada ocasião.

Parabéns Mauricio, mais uma vez, pela coragem e competência!

Recomeçar

“Os meus pés tocam um novo chão / solo abençoado onde Deus quis habitar”

Sair de casa é sempre uma sensação muito estranha… Há 3 anos saí de casa pela primeira vez quando me casei e precisei constituir um novo lar. Confesso que os primeiros meses foram bem complicados, em especial por ter que aprender a conviver com alguém que não meu pai, mãe e irmão, pessoas com quem passamos a vida inteira aprendendo a lidar. Ter que conciliar manias, hábitos, queixas, valores inteiramente novos faz do casamento uma arte. Infelizmente e cada vez mais, para poucos.

E agora, em 2010, minha segunda saída de casa. Deixar um ministério com duas décadas de existência e partir para pintar, mobiliar e equipar minha própria casa está sendo, confesso, igualmente angustiante. Ao mesmo tempo que há a liberdade de tomar minhas próprias decisões, cada uma delas se torna seis vezes mais pesada, já que não há companheiros de banda com quem dividi-las. Também seis vezes maior a responsabilidade de escolher repertório, administrar músicos, fazer um trabalho tão bom ou melhor que o anterior. Penso no momento em que pisarei novamente no palco para cantar um repertório inteiramente novo, e músicas que nunca ninguém antes cantou com músicos com quem nunca toquei. Some-se a isso o peso da responsabilidade de alguém que não é porta-voz de si mesmo, mas de uma mensagem inspirada por Deus e vertida em canções.

Botar a mochila nas costas com seus pertences, alguns que ainda serão úteis e outros que, mais tarde, se descobrirá que não mais serão e partir para além do deserto. Eis meu chamado. Sabendo que, ainda que eu não venha a alcançar a terra prometida, terei a paz de saber que, ao menos, estarei deixando os meus bem mais próximo dela.

 

Texto publicado originalmente no blog Especular no dia 07/09/2010

FIFA x Deus

A FIFA proibiu as manifestações religiosas dos jogadores nos jogos da Copa do Mundo. A única voz que pode falar em campo é a voz do patrocinador. Num momento em que alguns países proíbem a ostentação de símbolos religiosos, isso se torna sintomático. a grande religião do século XXI é o consumo.

A fé cada vez mais é um artigo cuja propaganda tem sido proibida. Tratada exatamente como o cigarro, por exemplo, que teve sua propaganda proibida na década de 90 e que acabou com eventos como o Hollywood Rock e o Free Jazz Festival. Será que Marx venceu? Será que vamos mesmo ser obrigados a comprar a idéia de que “a religião é o ópio do povo”?

Em tempos onde tanto se discute sobre democracia, liberdade de expressão e de religião, essa tendência é um enorme contrasenso e exige de nós, crentes de todas as crenças, uma postura. Afinal de contas, o ateísmo é ou não é também uma crença?

Cantos novos

Comecei a compor quase na mesma época em que comecei a tocar violão. Tocava no grupo de oração e sentia necessidade de produzir mais músicas novas, músicas que expressassem a espiritualidade daquelas pessoas que vinham toda semana para falar com Deus e ouvi-lo. Era uma época em que quase toda a produção musical católica era produzida na RCC por pessoas que gravavam seus discos com músicas que, de autoria própria ou não, costumavam cantar em seus grupos. Da mesma forma, comecei a compor músicas para serem cantadas em grupos de oração.

Apesar disso, minhas músicas permaneceram durante um bom tempo engavetadas (revisitando-as hoje, agradeço esse feliz contratempo). Alguns anos mais tarde resolvi gravar uma fita cassete com minhas composições e distribuir para alguns amigos próximos. Eu, que sempre fui – e até hoje sou – muito tímido para mostrar minhas músicas, tive ali naquele cassete que batizei de Recado meu primeiro canal de divulgação das minhas músicas.

Curiosamente, pouco tempo depois fui chamado para participar de uma banda cujo nome refletia essa minha constante necessidade de produzir novas composições: Canto Novo, uma das bandas do Rio de que mais gostava. Lá tive a oportunidade de, além de compor especificamente para a banda (“Nova geração” e “Quando Deus não está”), cantar músicas que eu já tinha antes de entrar para a banda (“Junto a mim” e “Desafio”) e, graças a Deus o retorno era muito positivo.

Ao longo desses anos sempre tive a consciência de que minha música estava mais a serviço do ministério que eu exercia no momento do que por uma necessidade artística pessoal. Minhas músicas, com raras exceções, eram feitas para serem tocadas nos grupos que eu frequentava, muito embora isso quase nunca acontecesse.

Sendo assim, com o tempo, fui me dando conta de que a melhor maneira de que fazer com que minha música chegasse onde deveria – no louvor das pessoas –  a melhor maneira era embalando-as com arranjos bem bonitos e encaixotando num CD. É assim que nasce meu mais novo projeto. Seja bem-vindo!

Por quê raios a TV por assinatura não se dá ao trabalho de traduzir para o português o nome das séries que ela exibe? É um tal de Lost, Friends, Cold Case, Dawson’s Creek, Big Bang Theory, Gossip Girl, Heroes, Band of Brothers, Law of order, Two and a half men, Sex and the city, Desperate housewives…

Fico imaginando como seria nos anos 80 se assistíssemos as seguintes séries com o nome original: Jeanie é um gênio (I dream of Jeanie); Jornada nas estrelas (Star Trek); O elo perdido (Land of the Lost); A feiticeira (Bewitched); A gata e o rato (Moonlighting); As Panteras (Charlie’s Angels); As patricinhas de Beverly Hills (Clueless); Família Dinossauro (Dinosaurs); Tal pai, tal filho (Doogie Howser, M.D.); Agente 86 (Get Smart); Casal 20 (Hart to hart); Super Vicky (Small Wonder); A Família Buscapé (The Beverly Hillbillies)…

Você pode achar que o nome em inglês é mais chique e achar ridículas as traduções que poderiam ser feitas de séries consagradas como Lost (Perdidos), Sex and the city (Sexo e a cidade), ou Desperate housewives (Donas de casa desesperadas), mas mesmo em nomes que ficaram bizarros em português como Barrados no baile; Um maluco no pedaço; Eu, a patroa e as crianças, com o tempo acostuma-se de modo que não conseguimos mais desvincular a série do nome em português. Mesmo uma série cuja tradução qualquer um entenda – como Friends, por exemplo – um nome em português certamente teria uma carga afetiva muito mais forte, e certamente haveria uma identificação muito maior com o público.